Trabalhadores da fábrica ocupada Flaskô, autogestão no contexto de crise

13/07/2017, por ciço hernandez

A Flaskô, uma propriedade social

Há 14 anos no dia seis de junho de 2003 acontecia um fato inédito na cidade de Sumaré no interior do estado de São Paulo, a ocupação de uma fábrica pelos trabalhadores. Em atividade até hoje no ramo de transformação de plástico, a Flaskô opera com 41 trabalhadores. É um símbolo de resistência política porque é um caso único dentre as empresas brasileiras, pois é uma ocupação auto-organizada, caracterizada pela autogestão, isto é não há hierarquia, as decisões são coletivas e os espaços são coletivos/sociais. Sendo uma propriedade social[1], a fábrica é aberta ao público e por essa característica ela desenvolve atividades de cunho humano e social, bem como é um foco de resistência e luta política. Possui jornada de trabalho reduzida de oito horas para seis horas[2], sem redução de salário e impacto na produção, carteira assinada, FGTS e INSS.

De uma forma que os trabalhadores participam de manifestações políticas contra os ataques aos direitos e a conjuntura brasileira repleta de manutenção das desigualdades. Já visitaram o congresso nacional em busca de apoio político visando a estatização da fábrica, mas que não foi ouvida. Segundo o então presidente Lula, “a estatização não está no cardápio” [3]. Mesmo assim a ajuda de outras entidades, como o Grupo de Pesquisa em Empresas Recuperadas pelos Trabalhadores (GPERT)[4] assessoria solidária que atua em cooperativas e fábricas recuperadas pelos trabalhadores, companhias de teatro, a Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares (ITCP) e até o governo venezuelano sob a posse do presidente Hugo Chávez que doou 56 toneladas de matéria prima para a fábrica[5], assim como inúmeros coletivos (Juntos, Levante, Domínio Público) e outras entidades políticas (Esquerda Marxista), contribuem para apoiar e contribuir para os projetos da Flaskô.

Atualmente existe o Barracão de Cultura, onde clipe musical já foi gravado[6], grupos de teatro já fizeram apresentações[7], cartunistas já trabalharam e produziram conteúdo para e sobre a fábrica[8], e também, além disso, no local onde a fábrica poderia ceder espaço para especulação mobiliária, os trabalhadores optaram pela construção da Vila Operária[9], de forma que o movimento por moradia ocupasse o espaço ocioso da propriedade. Uma conquista da luta dos trabalhadores da Vila Operária e da Flaskô, onde hoje moram cerca de 560 famílias.

O abandono patronal: calcanhar de Aquiles da estrutura capitalista

A fábrica Flaskô, uma produtora de bombonas, galões e tambores plásticos, começou suas operações durante os anos oitenta quando ainda era gerida pelos patrões. Durante o período da gestão patronal, a fábrica compunha o mesmo grupo que a empresa Tigre T-Tubo. Foi durante os anos noventa, quando o Brasil passou por um processo de recessão que houve a cisão do Grupo Hansen[10] e a divisão dos bens. Essa divisão visou uma reestruturação administrativa como forma da fábrica, resistir ao capital direto estrangeiro, ou seja, às empresas estrangeiras. Durante este período muitas multinacionais vieram para o país. Devido à abertura econômica que favorecia as empresas de fora, mas não as empresas nacionais porque as daqui não tinham capacidade de competir com grandes conglomerados, muitos empreendimentos foram sugados pelas empresas maiores ou tiveram suas portas fechadas, principalmente os pequenos e médios negócios.

Com a Flaskô não foi diferente, mas a reação dos trabalhadores foi inusitada.

Como dito, o primeiro efeito foi que o Grupo Hansen foi repartido entre os herdeiros da família a fim de resistir aos impactos financeiros e durante este processo a Flaskô se tornou parte da corporação Holding Brasil (CHB). Durante os anos noventa, começou um processo de abandono e sucateamento da fábrica, e tanto mais atraso de salários sem nenhuma justificativa, atraso do depósito do FGTS e do pagamento do INSS, venda das máquinas do parque fabril e etc, ao passo que os gerentes e chefes continuavam ganhando os mesmos salários.

Aí que a indignação se transformou em táticas de ocupação que começou a pulsar no sangue dos trabalhadores. Sentar na cadeira do gerente era uma forma de fazer com que ele não ficasse na fábrica, até o dia em que os trabalhadores sentaram na cadeira e instruíram os patrões para nunca mais voltarem, demitindo-os. Não foi tão simples assim, e no auge da ocupação um interventor do estado tentou acabar com a ocupação, mas sem sucesso; então a polícia federal foi acionada para fazer a reintegração de posse, mas a Flaskô também resistiu[11]. Atualmente a fábrica está ocupada, mantendo o controle operário (mantida organização democrática, autogerida, dividida em cargos) onde as decisões são feitas em conjunto.

Desta maneira no período de 1990 até 2002 a fábrica passou por um processo de sucateamento e abandono que culminou em 2003 em sua ocupação, uma ocupação caracterizada pela solidariedade, resistência política, enfrentamento frente às crises políticas e econômicas, utilizando ferramentas da autogestão, da solidariedade e do cooperativismo.

A ocupação foi a tentativa dos trabalhadores em organizar uma fábrica abandonada pelos donos que não pensaram no bem estar social e que preferiram deixar dívidas de mais de 100 milhões de reais[12] para com fornecedores, clientes, a União e os próprios trabalhadores da Flaskô, para poderem salvar seus investimentos.

Desta maneira, com a tomada dos meios de produção pelos trabalhadores, a fábrica abandonada ganhou vida, e isso incomodou muita gente. Por isso na fala de antigos trabalhadores “ocupar uma fábrica é montar um cavalo doido” [13] e esta metáfora é um resumo da trajetória da fábrica.

OCUPAR, PRODUZIR, RESISTIR!

Na Flaskô já foram feitos leilões para tentar vender as máquinas, mas “se arrematar não vai levar” [14], dizem as palavras de ordem. Outras tentativas como os cortes de luz sem aviso prévio mandado pela CPFL[15] se somam aos boicotes sofridos pela fábrica.

Em outros casos há todo tipo de difamação, como reportagens e notícias que geram boatos negativos sobre a fábrica[16], e cabe aqui ressaltar a notícia da Veja (ver rodapé).

A situação de sucateamento e falência gerada pelos antigos donos nos anos noventa e os boicotes que visam retaliar a fábrica não impedem e desmotivam aqueles que acreditam na luta política e no enfrentamento contra as desigualdades e injustiças sociais. É claro que o desgaste dos trabalhadores se torna visível, até porque, quem não se desgasta dentro do mundo do trabalho? Todavia os trabalhadores oxigenam a fábrica, ocupando, resistindo e mantendo a produção, estabelecendo novos contatos e parceiros, convidando escolas, universidades, militantes e ativistas para participarem das atividades políticas e projetos, fazendo chamada de artistas para eventos e festivais fomentando a integração cultural e artística, difundindo temas como a igualdade de gênero, a luta contra o racismo e o machismo, a importância da democracia, descriminalização das drogas e outros de cunho crítico e embate anticapitalista. Além disso, mantém a produção honrando os compromissos com os clientes e os fornecedores de matéria prima e de energia elétrica.

Na atualidade a fábrica resiste e se mantém firme, mesmo após dois meses (04/2017 – 06/2017) com a produção interrompida por conta de um corte de energia a mando da CPFL. A luta continua, porque para além de todos os problemas e dificuldades, algo que se mantem vivo entre os trabalhadores é o fato de que não há nada como trabalhar sem o chicote do patrão[17] e poder direcionar a própria vida[18]. Ocupar, Produzir, Resistir, essas são as palavras de ordem para a manutenção da autogestão. Fascistas, golpistas, não passarão; por mais fábricas ocupadas neste período de instabilidade política, ataque aos direitos dos trabalhadores e degradação sócio-ambiental. Abaixo o governo golpista! Todo apoio e solidariedade aos trabalhadores da Flaskô!

[1]  Flaskô, a única fábrica sob controle operário no Brasil, por Paloma Rodrigues — publicado 26/05/2014 04h12, última modificação 26/05/2014 04h55. https://www.cartacapital.com.br/sociedade/flasko-a-unica-fabrica-sob-controle-operario-no-brasil-5348.html

 

[2] RESISTINDO COM CLASSE: o caso da ocupação da Flaskô. FILIPE OLIVEIRA RASLAN. 2007  http://repositorio.unicamp.br/bitstream/REPOSIP/279278/1/Raslan,%20Filipe%20Oliveira.pdf

 

[3] Trajetórias de trabalhadores de fábricas ocupadas e geridas na perspectiva do “controle operário” – Brasil e Argentina. Josiane Lombardi Verago – Prolam/USP. I Seminário Internacional de História do Trabalho V Jornada Nacional de História do Trabalho Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis 25-28/10/2010

[4] Grupo de Pesquisa em Empresas Recuperadas por Trabalhadores, 07/07/2017 https://gprecuperadas.milharal.org/galeria-2/

 

[5] Única fábrica ocupada do Brasil rema contra a maré e quer estatização. 31/07/2009. http://psol50sp.org.br/capital/2009/07/31/unica-fabrica-ocupada-do-brasil-rema-contra-a-mare-e-quer-estatizacao/

 

[6] RAPPER P.Á (PATRÃO), música: Logo eu lembrei (Video Clipe Oficial 04/2017) https://www.youtube.com/watch?v=eB63dQ72vsU

 

[7]  Grupo teatral vai ao Ministério Público questionar ação da PM em espetáculo, por Ponte Jornalismo — publicado 02/11/2016 00h04. https://www.google.com.br/url?sa=t&rct=j&q=&esrc=s&source=web&cd=1&ved=0ahUKEwiK6LPsqoXVAhVBgpAKHWjcAEAQFggpMAA&url=https%3A%2F%2Fwww.cartacapital.com.br%2Fpolitica%2Fgrupo-teatral-vai-ao-ministerio-publico-questionar-acao-da-pm-em-espetaculo&usg=AFQjCNF3Ghh1xUaZsw32LKI_jDGriaWCKQ

 

[8] Flaskô: uma Fábrica Ocupada pelos Trabalhadores. 12/04/2012. http://batatasemumbigo.blogspot.com.br/2012/04/flasko-uma-fabrica-ocupada-pelos.html

 

[9] A Flaskô e a Vila Operária e Popular: algumas reflexões, por Vinícius Martins. 2011. http://www.simposioproducaosocial.org.br/Trabalhos/402.pdf

[10]  http://www.confluencias.uff.br/index.php/confluencias/article/viewFile/410/320

[11] Polícia Federal realiza reintegração de posse de fábricas ocupadas 6/06/2007. http://www.revistaforum.com.br/2007/06/06/policia-federal-realiza-reintegracao-de-posse-de-fabricas-ocupadas/

 

[12] Trabalhadores da Flaskô lutam pela estatização da fábrica, por Jornal Página Popular. 04/06/2013. http://www.paginapopular.com.br/trabalhadores-da-flasko-lutam-pela-estatizacao-da-fabrica/

 

[13] Flaskô, a Fábrica, por Emiliano Goyeneche. 2013. CurtaDoc. http://curtadoc.tv/curta/inclusao/flasko-a-fabrica/

 

[14] Ato no Fórum impede arremate de maquinários da Flaskô. ATO EM FRENTE AO FÓRUM DE SUMARÉ IMPEDE A RETIRADA DOS MAQUINÁRIOS DA FLASKÔ, 13/04/2007. https://flasko.blogspot.com.br/2007/04/ato-no-frum-impede-arremate-de.html?m=0

 

[15] Única fábrica sob controle operário no Brasil, Flaskô tem energia cortada e prejuízo de R$ 200 mil

CPFL confirma a interrupção do serviço na empresa em Sumaré e afirma que o motivo foi a falta de pagamento de parcelas negociadas. Por Roberta Steganha, 20/04/2017 18h12. Atualizado 20/04/2017 19h13. http://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/noticia/unica-fabrica-sob-controle-operario-no-brasil-flasko-tem-energia-cortada-e-prejuizo-de-r-200-mil.ghtml

 

[16] Ocupar e arruinar. Radicais do PT criam o MST das fábricas e usam o dinheiro das empresas ocupadas em proveito próprio, por Duda Teixeira 29/08/2007. http://origin.veja.abril.com.br/290807/p_086.shtml; Em resposta o Movimento de Fábricas Ocupadas (MFO) solta uma nota rebatendo: Revista Veja Falsifica E Calunia Os Dirigentes Do Movimento Das Fábricas Ocupadas, Publicado em 26/09/2007 por Fábio Ramirez. https://blogdoramirez.wordpress.com/2007/09/26/resposta-a-revista-veja/

[17] SOLIDARIEDADE AOS TRABALHADORES DA TECNOMETAL Saudação aprovada em Assembleia nesta data. Sumaré, 07/11/2014. Fábrica Ocupada Flaskô – 19-3864-2624 / 19-98129-6637 http://www.fabricasocupadas.org.br/site/index.php/noticias?start=90

 

[18] Entrevista com Pedro Santinho: uma história de luta em uma fábrica sob o comando dos trabalhadores. Beatriz Ferraz Diniz. Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. Cadernos de Psicologia Social do Trabalho, 2007, vol. 10, n. 2, pp. 111-120 http://www.revistas.usp.br/cpst/article/viewFile/25804/27537

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