Subsolo

De volta pro subsolo

Lá onde os vermes festejam

Os fungos crescem

E os escorpiões se apaixonam

 

Lá onde a natureza morta é viva

Onde todas as lástimas comemoram

O lugar em que a felicidade rasteja

E os mortos se encantam

 

O campo de guerra e o cheiro podre

vida e mundo se esvaem aos poucos

Um presente aos olhos da escuridão

 

Quando saio pela porta da frente da mente

As ruas e flores, o sol e os rostos

São um campo de concentração

Resenhando, memória de minhas putas tristes: uma história machista de pedofilia?

Com quantas(os) amantes você já saiu? Quantos amores já teve? Quantas loucuras de amor já fez? Além da paixão existe algo intenso e o quanto sabemos que estamos sentindo isso ou não? Memória de minhas putas tristes, escrito pelo colombiano Gabriel García Márquez e publicado no ano de 2005, o livro retrata a história de um idoso escritor literário, cronista e crítico musical, viciado em sexo. Passando por todas os gostos e tipo, no aniversário de seus noventa anos ele resolve dar para si um presente inusitado, uma virgem para a satisfação de seus desejos. Conversando com a dona do prostíbulo, Rosa Cabarcas, ele solicita o impossível para ela.

No princípio ele acredita que se ‘apossará’ da moça, que ele nomeia de Delgadina porque desconhece seu nome verdadeiro, porém o que ocorre é que ele se apaixona profundamente pela moça. Com 16 anos, a diferença de 74 anos nos mostra uma relação que consideramos absurda nos dias de hoje, menos pela diferença de idade e mais pela relação com uma menor de idade. A jovem, pobre depende dos serviços no bordel para conseguir uma renda, já ele é conhecido por ser o “professor do amor”, devido as crônicas que escreve para o jornal. Este é um tom no mínimo hierárquico, para não dizer paternalista: a jovem ninfeta e o sábio velho.

Quando comecei a ler o livro, vi uma relação doentia. Me parecia que o livro era uma defesa de relações pedófilas, me assustou nas primeiras páginas. “Virgens sobrando neste mundo só os do seu signo, dos nascidos em agosto” diz a dona do prostíbulo Rosa Cabarcas quando ele pede o aconchego de uma mulher mais jovem.

Todavia, logo começo a perceber no livro o toque de solidão e existencialismo na escrita. Na noite do primeiro encontro com a jovem, o protagonista compara as relações que tinha ocasionalmente e devaneia sobre a relação que está tendo:

“Ignorava as manhas da sedução e sempre tinha escolhido ao acaso as noivas de uma noite, mais pelo preço que pelos encantos, e fazíamos amores sem amor, meio vestidos na maior parte das vezes e sempre na escuridão para imaginar-nos melhores. Naquela noite descobri o prazer inverossímil de contemplar sem as angústias do desejo e os estorvos do pudor, o corpo de uma mulher adormecida.”

Esta é uma frase onde o autor demonstra que o assunto não é acerca da pedofilia, ou sobre machismo, mas sobre uma pessoa que anda na solidão, que sempre tratou os desejos como a sociedade ensina, uma sociedade cada vez mais hedônica para aqueles que possuem, e por outro lado, asceta para quem é despossuído. A sociedade do “instantaneísmo” masculino. Uma sociedade que permite ao homem realizar tudo o que pode, inclusive aos noventa anos de idade sair com uma jovem de dezesseis, e de um outro lado permite às mulheres apenas serviços submissos e subalternos, mas que tanto um como outro está na mira do vazio.

No primeiro encontro com a moça, o protagonista logo percebe que não tem o mesmo desejo que teria por outras mulheres. Percebe que não há o mesmo impulso nem o desejo em saciar o ímpeto sexual. Ele começa a perceber que está apaixonado, que não liga para o sexo, mas quer estar com a pessoa e em sua presença poder desfrutar do aconchego de estar com alguém que não o julgue, que não deseja o material, muito menos o chantageie. Ele passa a perceber que o amor é algo que faz a vida ser vista de outra maneira:

“Descobri que não sou disciplinado por virtude, e sim como reação contra a minha negligência; que pareço generoso para encobrir minha mesquinhez, que me faço passar por prudente quando na verdade sou desconfiado e sempre penso o pior, que sou conciliador para não sucumbir às minhas cóleras reprimidas, que só sou pontual para que ninguém saiba como pouco me importa o tempo alheio. Descobri, enfim, que o amor não é um estado da alma e sim um signo do zodíaco.”

Após um assassinato no prostíbulo que faz o protagonista desacreditar no amor porque começa a ficar paranoico entendendo que foi um golpe de Rosa, com o advogado e a menina de dezesseis anos para ficar com seu dinheiro, o protagonista sente o peso do amor encarnado no ciúmes.

“Pois o diabo soprou em meu ouvido um pensamento sinistro. E foi assim: na noite do crime rosa Cabarcas não deve ter tido tempo nem serenidade para prevenir a menina, e a polícia a encontrou no quarto, sozinha, menor de idade sem álibi. Ninguém como Rosa Cabarcas para uma situação como aquela: vendeu a virgindade da menina a algum de seus grandes figurões a troco de ficar fora do crime.”

Mas aí que Márquez, já tendo apontado o sentido do livro, que não se trata de uma relação doentia, mas uma relação onde o amor transcende as barreiras, aponta o ciúme como o “retrato ruim” do amor. Se sentindo traído, o protagonista já não acredita em Rosa e em Delgadina, porque está cego de amor. Rosa Cabarcas tenta acalma-lo relatando que o que ele imaginava, a venda da virgindade de Delgadina, era uma paranoia, mas ele não consegue acreditar, pois tomado pelo ciúme, não consegue pensar racionalmente.

“Fiz um esforço sobrenatural para acreditar nela, mas o amor pôde mais que a razão. Putas!, disse a ela, atormentado pelo fogo vivo que me abrasava as entranhas. Isso é o que vocês são!, gritei: Putas de merda.”

A paixão, o ciúme a saudade são inerentes ao amor. E o protagonista já não deseja outra mulher, não liga da ausência do sexo e muito menos se preocupa em manter a aparência. Nessas alturas, o livro já não soa como doentio, mas como um romance impossível, ao mesmo tempo em que o amor transcende os padrões e as barreiras sociais.

“Tornei me de lágrima fácil. Qualquer sentimento que tivesse algo a ver com a ternura me causava um nó na garganta que nem sempre conseguia dominar, e pensei em renunciar ao prazer solitário de velar o sono de Delgadina, nem tanto pela incerteza da minha morte como pela dor de imagina-la sem mim pelo resto da sua vida.”

Perto do fim da vida, o homem encontra o sentido do amor,

“Era enfim a vida real, com meu coração a salvo, e condenado a morrer de bom amor na agonia feliz de qualquer dia depois dos meus cem anos.”

E tanto mais, Delgadina também apaixonada pelo nonagenário, não vê a hora de estar com ele.

Este livro me fez olhar para a pureza do amar, para a importância de lidar com a vida sem se importar com rótulos e também para a necessidade de entendermos para onde foi parar a sensibilidade humana. Um livro que lança de antemão uma polêmica retratada pela relação jovem/velho x pater/prostituta, e que me perturba até agora, o autor Gabriel Gárcia Márquez retrata com uma sabedoria o que tem acontecido nos dias de hoje na sociedade cada vez mais acelerada: uma juventude que corre atrás da sobrevivência em um mundo cada vez mais hostil e selvagem, gerando idosos repleto de desejos obscuros, devido à falta de compreensão do que é o amor e o seu significado em suas vidas, e que só entende o sentido frente ante à morte. A pedofilia e o machismo em cheque.

 

O Casarão

O Casarão

Hoje, dia primeiro sai sem rumo. Eu estava sem nenhuma vontade de ficar em casa. Chovia muito, mas a casa era um tédio. Na rua não havia muitos, ainda porque era um domingo. Eu queria celebrar o primeiro dia do mês bebendo e andando sem rumo. Queria pensar na vida, nos amores, nos sofrimentos, na solidão e na comunhão. Na minha caminhada sem sentido e sem direção, dava goles do vinho e sentia o vazio do dia a dia. No meu caminho pela cidade uma construção me chamou a atenção. O vinho ainda estava inteiro. A construção era antiga, como aquelas de novelas desbotadas, mas marcantes e imponentes pela sua estética que rasga o tempo. Sua beleza, primitiva, em meio a uma série de pichações se sobressaía sem nenhum aspecto chamativo, se não o fato de lembrar às novelas de época. Bebendo outro gole do vinho, fico atônito e perplexo com o descaso da cidade em preservar o casarão, e ao mesmo tempo percebo o quão vivo era essa construção porque reunia as mais variada almas. Vasculhei e de repente percebi que se tratava de um casarão interditado para demolição. Quando me vi estava pulando os muros e portões trancafiados por cadeados, e junto a mim meu vinho. Quando pulei o muro, um cenário novo, inesperado e ao mesmo temo simbiótico e bioantropologico me aparece. O casarão que parece apenas uma arquitetura bonita, me reaparece sob outros olhos. Quanto mais eu vasculhava a parte de trás do casarão mais eu bebia. Logo que pulo o muro, me ponho a andar e vejo carros de papelão e recicláveis logo no local em que caio pelo muro. Me parece uma clareira com duas arvores que não dao frutos. Olho à minha esquerda e vejo um muro intransponível, velho e carcomido, do outro lado o resto do casarão. Quando percebo, vejo um quadro de Jesus Cristo, e roupas pelo chão. As portas da estrutura estavam todas fechadas, dando mais ainda uma sensação de abandono, mas de mínima atividade humana. Passando pelo fundo do casarão, percebo algo parecido como um banheiro. O cheiro, a cor, a disposição dos excrementos humanos sugere que ali é o banheiro. Ando mais cinco metros e encontro outro quarto. Este, possui papelão, cobertas, pedra, terra e as folhas da natureza que invade o recinto. Ambos os quartos possuem menos de 2 metros de altura, e no que possui papelão e cobertores só é possível dormir. Fico imaginando a capacidade do indíviduo em resistir nessas condições. Nessa altura o vinho já esta indo para a metade. Percebo que ali não é um casarão para ser derrubado. Gatos saem da construção por curiosidade, mas logo retornam. Ali não é um lugar podre, fétido, nojento como muitos vão pensar, é um lar. E logo que me perguntei, a partir desta conclusão, que tipo de pessoa viveria em um lugar como esse, não me veio a figura de um morador de rua, um louco ou maníaco, mas uma pessoa normal; também percebi que não queria limpar aquele lugar, nem higienizar ou levar um assistente social ali; percebi também que ali não era um lugar abandonado, mas a morada de um ser humano. Percebi o desrespeito que causei ao invadir sua morada. E continuei meu caminho.

Peguei minha garrafa de vinho e pulei o muro de trás do casarão.

Prego no peito

Nenhuma terra se tornou minha
Nenhum mal enfrentei
Nenhuma história triste vivi
Por nenhum mar naveguei

Nenhuma contradição percebi
Nenhuma estrela brilhou
Com minha retina o sol eu vi
E la de repente ela ficou

Nenhum sentimento de raiva
Nenhuma lágrima de amor,
Mas fogo e ferro ardendo em brasa
Em meu sangue foi o que restou

Nem assim vivo tranquilo
Sabendo que em Deus do Raio se tornou
Nenhum trovão ouvi
Nem mesmo quando a tempestade chegou

E por isso mesmo caminho
Nem junto e nem separado
Caminho pelo meu próprio sonido
E sei que sem ti sou nada

Não falo de Deuses humanos ou cascatas
Falo de você que não viveu coisa alguma
Não que eu seja Poseidon o Deus das águas
E muito menos a vertigem do destino
Sou o decadente ao seu lado
Que leva luz à lugares sombrios

338______25/02/2017